quinta-feira, março 26, 2015

Ao jovem Fernando Holiday, com carinho...


Fernando, alguns de meus amigos me chamam de Mr. Magoo (por causa da miopia e do carisma), outros me chamam de Cláudio mesmo. Eu tenho idade para ser seu pai. Mas, escrevi este texto para você, movido por um sentimento de irmandade que sei que é frágil de um ponto de vista racional, mas sinto como forte do ponto de vista histórico, político e afetivo. Não sei se você será capaz de compreender a complexidade dessa relação hoje. No tempo em que eu era você, eu também não a compreendia.
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No tempo em que eu era você, se alguém me dissesse o que eu te digo hoje, é possível que eu desse de ombros, virasse as costas. É verdade que naquele tempo, ninguém me disse algo assim. De qualquer forma, eu vou falar com você hoje. Porque hoje eu não sou mais você; eu aprendi a ser outra pessoa. E assim, como eu aprendi, com o tempo, espero que você também aprenda. Afinal, o tempo é maior que nós dois.
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É por acreditar no tempo, e nas transformações que ele realiza, que eu queria falar com você. E queria que minha fala soasse carinhosa, sem rancor, sem revolta. Não escrevi isso para “esfregar nada em sua cara”, muito menos verdades.  Eu queria mesmo era saber de sua vida, queria conhecer você melhor, para além do que já sei de você pelo que há de você em mim. E para além do que já sei de você pelo que há de você em meu querido irmão. Que, aliás, parece um pouco com você. Meu irmão é como você: bonito, inteligente e negro. Acho que foi por causa dessa semelhança entre você e meu irmão (mesmo que ele não seja mais tão jovem quanto você), que eu resolvi me dirigir a você da forma mais carinhosa possível.
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Fernando Holiday no vídeo "Como se defender com uma banana"
Fernando, você não é o primeiro, nem o mais importante negro a ser usado por aqueles que gostariam de manter as coisas como as coisas sempre foram. O passado remoto e a história recente estão cheios de exemplos de alianças entre brancos exploradores e negros escolhidos entre os explorados, para facilitar a exploração. A colonização africana foi feita dessa forma em muitos países. A manutenção da escravidão no Brasil se apoiou nisso. O nosso futebol e a teledramaturgia global pipocam de exemplos, com suas realezas e suas globelezas. Pessoas negras cooptadas para manutenção do racismo e da discriminação fervilham desde o tempo em que as mídias não eram tão virtuais... você, Fernando, definitivamente não é o primeiro, nem o mais importante negro a chacoalhar uma banana na internet gerando mais lucros e risos para grupos de brancos ricos.
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 Não vou fingir que não fiquei puto de raiva quando assisti os seus vídeos, comecei por aquele em que você critica as cotas (e as gostosas - eu também nunca dei muita sorte com elas na sua idade), e fui vendo os outros, em que você fala mal dos estudantes de humanas (como se a maconha fosse desconhecida pelo pessoal das exatas ou das engenharias); em defesa do porte de armas para os “cidadãos honestos” você protestou… comendo uma banana?!? (onde eu já vi isso?!?!); a ironia com a Luciana Genro do PSol (podia ter sido com o Jean Willys, porque ele sim, entrou em conflito com as mulheres negras, mas você não sabia, né?). E o trocadilho com o Genoíno (não foi você que fez, aquela piada, né?). Então, claro que fiquei ofendido quando assisti aos seus vídeos. Mas, mais forte do que a revolta foi a tristeza que me abateu quando vi naqueles vídeos, com você… o menino que eu já fui. Alienado de sua própria condição de negro, usado como o cavalo de um egun ingrato, que não vai lhe deixar nem mesmo o gosto da festa na boca quando abandonar o seu corpo.
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Quando vi você descascando aquela banana, sem saber o que fazer com ela, a não ser comê-la em frente à webcam...eu fechei os olhos e chorei. Chorei como quem chora a morte de um irmão querido. Não estou fazendo uma metáfora, eu realmente chorei de tristeza por ver a que ponto de alienação pode chegar um jovem negro, que poderia ter sido eu, ou o meu irmão. E em razão dessa tristeza que resolvi escrever esta carta pra você, com carinho. Porque, mais do que revoltado, fiquei triste e desapontado.
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Fernando, meu irmão, eu não esperava isso de você. Na verdade, sei que isso não veio de você. Assim como não veio de mim a agressão que eu pratiquei várias vezes contra a menina negra que morava na minha rua. Eu não disse que já fui você? Pois é, quando eu era você, nem negro eu era. Eu era ‘moreno’. Negra era a minha vizinha Conceição que eu xingava de macaca, toda vez que apanhava dela. Negro era o meu vizinho Walmir que me contava todas as piadas de negro que eu conhecia. Fernando, você, Walmir e eu, quando repetimos com nossa voz o desprezo por coisas que poderiam dar aos negros um lugar de destaque no mundo; quando repetimos com nossa voz o discurso de desprezo pela identidade dos negros; quando nos colocamos a serviço daqueles que querem que as coisas voltem a ser como eram, segundo a ordem racista; quando agimos assim, isso não vem de nós. Isso passa através de nós, que somos usados como carcaça vazia, por aqueles que continuarão sorrindo e enriquecendo às custas de nosso suor, de nossa carne negra, de nossos lábios grossos e de nosso cabelo crespo (cabelo que eles fazem questão de manter bem aparado).
Fernando, no tempo em que eu era você não haviam cotas ou qualquer política de ação afirmativa. Não havia ao meu redor, qualquer discussão sobre o mal do racismo, ou sobre a violência contra os negros. E eu cresci sem ouvir uma palavra qualquer sobre a possibilidade de um negro sentir orgulho de si mesmo. Por isso, quando tive contato com as primeiras discussões sobre identidade racial, ações afirmativas, luta pela igualdade entre negros e brancos, ou direitos civis para afro-descendentes, achei tudo isso “uma grande besteira!” Afinal, somos todos seres humanos, e o humanismo seria o único “ismo” que valia a pena defender. Todos os outros, como, por exemplo - e principalmente - o “feminismo” eram fruto de cegueira intelectual. Assim como você, eu já desprezei esse discurso de “orgulho negro” “Orgulho de quê ?” - eu dizia -  “Eu não fiz nada para ser negro!”
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É, Fernando… eu já falei assim como você. Mas, com o tempo, eu fui ouvindo o que aquelas pessoas - em sua maioria mulheres e negras - estavam me dizendo... por que será que elas insistiam naquilo? “identidade negra”, “100% negro”; “representação de negros”; “a vida das mulheres negras”; “cotas raciais”; “história da África”; “artistas negros”; “cientistas e pesquisadores negros”,  “a pele negra”, “o preconceito contra o negro na linguagem” …mas,  que obsessão! Com o passar do tempo, fui ficando curioso para saber o que aquilo significava... Tenho esperança de que você seja um jovem com curiosidade. Pois, como disse Tom Zé: “o que cura a humanidade é a curiosidade”.
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Espero que você use a curiosidade para se perguntar e perguntar aos que te rodeiam: Você é mesmo contra o estatuto do desarmamento? Você tem mesmo esse ódio da Dilma ou só queria ser engraçado? Você acha mesmo que são as cotas raciais que humilham os negros? Onde você leu que Zumbi dos Palmares era igual a Hitler? Olhe ao seu redor, você está mesmo rodeado de pessoas iguais a você? E mais importante: quem colocou no roteiro a ideia de você comer uma banana? E por que essa cena virou o título do seu vídeo?
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Como já disse, acho que foi por causa da semelhança entre você e meu irmão - entre você e eu - que eu resolvi me dirigir a você da forma mais carinhosa possível. Embora tenha idade para ser meu filho, você me lembra mesmo o meu irmão. Bonito, inteligente e negro. Só que o meu irmão, ao contrário de você, quase não discute política. Ele não saberia a diferença entre “direita e esquerda” a menos que estivesse falando da sinalização de trânsito. Mas, você fala como se conhecesse a “esquerda” profundamente... colocando no mesmo pacote, o MST, Dilma, e os professores que dão aula de “marquicismo”... aliás, você parece conhecer mais a esquerda do que Dragon Ball ... já que virou motivo de piada quando errou o Kamehamehá.
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Fernando, meu filho; Fernando, meu irmão, eu espero sinceramente que você leia o que eu escrevi pra você com carinho (estarei sendo ingênuo?). Ao menos fica a esperança de que outros jovens negros e negras, assim como você é hoje - assim como eu já fui - sem consciência de sua condição racial, mas ao mesmo tempo inteligentes, curiosos/as, com espírito questionador e livres possam ler o que eu escrevi e pensar sobre essas coisas... com carinho,

Cláudio, o Mr. Magoo.