“Dona Maria da Cabeça Branca”.
Era assim que minha bisavó, também de nome Maria e também de cabeça branca pelo
tempo contado nos cabelos, costumava se referir àquela senhora branca, de idade
bastante avançada que nos últimos anos de sua vida não enxergava mais. Perdeu,
por causa de uma catarata, a luz dos olhos. Mas, em compensação jorrava dela
uma luz interior que rescendia em seus gestos, em sua voz, e na
disponibilidade com que ela se colocava em auxílio dos outros. Eis que talvez
daí, dessa luz, lhe viesse o título que minha bisavó lhe dava. Dona Maria da
Cabeça Branca estava sempre lá para servir aqueles que a procurassem. Viessem
de onde viessem, por indicação de quem soubessem, em busca de reza, benzedura
ou remédio. Para picada de cobra (um ou outro, já que a coisa era muito rara
naquela região já relativamente urbanizada lá pelo fim dos anos 80); para
espinhela caída; mal olhado; peito aberto; erisipela, quebranto ou cobreiro.
Fosse o que fosse.
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Acredito que - pelo histórico desse tipo de trabalho - Dona Maria da Cabeça Branca conhecia também as artes
de “fazer descer a regra” em moças que se descuidaram com seus parceiros, no
trato de suas intimidades e corriam o risco de que o atraso se confirmasse numa
gravidez não planejada. Sobre isso nunca cheguei a conversar com ela - até
porque isso não era "assunto pra homem". A minha procura por ela estava
geralmente ligado aos cuidados da saúde da minha família. Minha mãe que se
contorcia de dores no peito e nas costas; minha irmã com diarreia e moleza no
corpo, minha bisavó com uma ferida e um vermelhidão logo acima do tornozelo. Eu
mesmo, com uma dor na altura do estômago, que parecia fome, mas que não
parava por mais que eu me alimentasse normalmente. Para todas essas mazelas a
intervenção de Dona Maria da Cabeça Branca era resolutiva, gratuita e
universal, - muito antes de haver qualquer coisa parecida com Estratégia ou
Programa de Saúde da Família. Antes inclusive de haver qualquer coisa parecida
com Sistema Único de Saúde. Nesses tempos, é bom lembrar, a saúde era direito
devido apenas aos trabalhadores de carteira assinada ou aos servidores
públicos. Aos demais integrantes da população saúde era uma caridade. E essa caridade, dona Maria da Cabeça Branca fazia como quem realiza o seu dever.
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Quando eu chegava em sua casa às
pressas, me debruçava sobre a metade inferior da porta, parava um pouco para
tomar fôlego, depois de ter subido as escadarias da rua Alto do Bambuí, trotando sobre os degraus de três em três. Lá
estava ela, cuidando da lida. Mesmo cega, ela cuidava de sua própria casa, um
puxadinho de três ou quatro cômodos nos fundos da casa do filho. Este filho
morava com a mulher e mais cerca de 08 (oito filhos) com idade que variavam de 04
a vinte e poucos anos. Dona Maria era respeitada por
todos. Por uns mais que por outros, já que eles variavam muito em suas formas
de obedecer. Todos sabiam que tinham que respeitar os mais velhos, mas cada um
respeitava do seu jeito. Daí que a lista de queixas e comentários sobre a
conduta dos meninos, acabava se registrando de modo enviesado. E o viés construía
os “currículos” de cada um: “Paulinho era tão educado”; “Ivan, estudioso”; “Sandro,
briguento” e “Clênio, desbocado”. A repetição desses rótulos acabava ocultando o
fato de que um era muito fechado; o outro, orgulhoso; aquele outro cheio de
amigos, e este último, altamente prestativo.
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Mas a vida desses rapazes, que viviam sob a
lei tradicional de um pai honesto, trabalhador e sisudo e uma mãe doce,
acolhedora e desautorizada é material para outras crônicas. O que minha memória
- e a minha memória é detalhista, ainda que não seja muito confiável - põe em
destaque hoje é a luz interior de Dona Maria da cabeça branca em contraste com
a luminosidade verde do meu pinhão roxo.
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O pinhão roxo que brilha no
quintal de minhas memórias, e que antes emprestava seus galhos para formar um tipo de iruquerê nas conjurações e benzeduras
de Dona Maria da Cabeça branca, é da mesma espécie que verdeja hoje no meu
quintal e atrai os olhos da minha filha descabelada. Esse pinhão roxo que viceja
no meu quintal e conjura em mim essas lembranças abençoadas é irmão de origem e
talvez de destino de outras plantas que, como ele, guardam cada uma a sua
ciência. A samambaia, o imbé-menino, comigo-ninguém-pode a espada de São Jorge,
e tantas outras pelo Brasil a fora, pela mata a dentro. Elas, com sua sabedoria
silenciosa, suas memórias indeléveis e o poder vital que carregam dentro de si,
herdarão o mundo, quando formos todos homens e mulheres de cabeça branca. Se é
que chegaremos a ser.
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obs.: os nomes das pessoas são reais, mas como já disse:
minha memória é detalhista, porém não é confiável.
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obs.: os nomes das pessoas são reais, mas como já disse:
minha memória é detalhista, porém não é confiável.
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