segunda-feira, junho 13, 2022

Pelo fim do discurso Monark: não pode tudo!

 

Eu começaria este texto com a afirmação de que a tristeza de Monark é muito bem vinda. Diria mais: a tristeza de Monark merece um jingle do tipo: "pra noooossa Alegriiiiaaaa!"...

Mas, em primeiro lugar é preciso explicitar que não temos acesso a Monark como uma pessoa física, no mesmo sentido que acessamos fisicamente um amigo, ou um irmão... Aquele primo chato que vem na sua casa de vez em quando, mexer nos seus brinquedos (quando vc tem brinquedo, né?).


Para a maioria de nós, Monark é um tipo de pessoa virtual. Algo como um avatar, ou uma persona construída em função de um determinado "mapa de empatia" (pesquisem sobre isso).

Vamos dizer que Monark é um discurso.

Um discurso sobre si mesmo e sobre o mundo. Esse discurso é flexível, ele pode ser afetado e mudar de aspecto. Um discurso que tem uma dimensão afetiva. Ou seja, assim como "O mercado" que fica "nervoso", "preocupado", "eufórico" com os resultados das pesquisas eleitorais, ou com a visão de uma guerra na Europa (mas, não precisa de calmante diante das dúzias de guerra que ele cria na África).
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Monark é um discurso que tem suas variações de humor. Mas, o elemento principal na estrutura desse discurso é a sua capacidade de monetização. Sua rentabilidade. O discurso Monark se fortalece, se expande, à medida que consegue agregar mais valor financeiro, procurando circular onde é melhor remunerado e ser remunerado onde circula melhor (porque a estrutura é circular)
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Alguns comentaristas ainda defendem o Monark humano, o menino Monark, ingênuo e de bom coração, que começou sua vida nas redes sociais, como discurso, monetizando performances politicamente inofensivas em torno dos jogos eletrônicos. Essa pessoa ainda pode ser acessado por seus parentes, suas amigas e amigos próximos. Contra esse, aquelas figuras críticas, que se apresentam como outros discursos, certamente não teriam nada a dizer. Mas, esse menino, esse homem jovem, não é o tema aqui.
Aqui o tema é o discurso Monark. Que passou a ser monetizado abordando assuntos culturais e políticos, deixando de lado a gramática dos jogos eletrônicos e RPG na qual dominava. Esse discurso irresponsável e nocivo à democracia,  que insiste em se apresentar como vítima de uma condenação injusta...e é "Meio que" (como ele mesmo costuma dizer) "Meio que um discurso Lula, diante dos discursos Moro e Operação Lava-Jato. No caso dele, seu algoz seriam os pessoas canceladoras e os patrocinadores, que são cruéis, violentas e não respeitam a sua liberdade de falar. Ou como prefiro entender aqui : não permitem que ele circule livremente como qualquer discurso, no plenário da democracia (e da monetização).

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A tristeza de Monark apresentada numa performance recente num feat com o discurso Kim Kataguri, que se oferece solidário, mas não incondicional porque tenta ensinar limites ao companheiro de cancelamento Vale ver o video do Meteoro Brasil ("calma, um car**lho. Não começa, Monark) e o video Reels do humorista Fábio Lins);. O discurso Kim foi "cancelado" também, mesmo dispondo de foro parlamentar, como um discurso privilegiado.
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Para nossa alegria, a tristeza e a frustração desses dois discursos, no cenário que se organiza, assim como o Mercado, em função da monetização, não poderia significar outra coisa: o dinheiro está indo em outra direção. E isso é muito bom.
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É bom, porque o discurso Monark, na direção em que estava indo, e no aspecto que estava tomando - e ainda corre esse risco - contribui de maneira ostensiva para o crescimento de outros discursos excludentes, opressivos e letais, tanto para a vida de outros discursos como para a vida de outros organismos e pessoas. Gente concreta, como Monark, lá no seu apê ou como o menino Miguel, no apartamento da patroa de sua mãe, a menina  Ágatha, filhos de mães pretas e periféricas... Discursos e vidas que um partido nazista com certeza exterminaria muito mais rapidamente.
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Se o discurso Monark, na sua busca de monetização, é incapaz de perceber o seu funcionamento  como elemento de propagação do ódio e como fomentador de pensamentos nocivos à vida pública e ao bem comum, então ele não tem condições de circular para além do seu cercadinho virtual. Não é saudável para a democracia que certos discursos prosperem.

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Acho que redirecionar, ou restringir o discurso Monark poderia mostrar ao menino Monark, um "menino" que gosta de se ver como uma pessoa "no caminho do Bem" (salve, Tim Maia!), que é saudável para um ser humano não poder tudo.

terça-feira, abril 19, 2022

A miss Alemanha 2022 representa Domitila (e é nós!)

Por Cláudio H. Pedrosa


(imagem: https://missgermany.de)

A História da jovem Domitila é obviamente maior do que o meu ponto de vista permite ver, é só olhar para o seu nome, que é uma referência à sindicalista boliviana, Domitila Barrios Chungara. (nascida em 7 de maio de 1937).

(Foto: Gabriel Rodriguez/ Fonte:www.umsa.bo)

Mas, do meu ponto de vista, essa história começa com o encontro entre o pai e mãe de Domitila. Ademilson & Roberta, um casal interracial de professores, ativistas pelos direitos das crianças, na periferia de Recife...

Conheci os dois uns anos antes de Domitila, a Miss Alemanha 2022, nascer. Eu tinha algo em torno de 12 anos... foi num carnaval. Lá pelo comecinho dos anos 80. Ademilson, organizou uma La Ursa com as crianças do Córrego. Gente, lá em Recife o que mais tem é Córrego (...do Ouro, do Euclides, do Genipapo, do Botijão.. Enfim, eu sou do Córrego, e a família de Domitila, também). Córrego ou Alto… Morro mesmo, só tem um, visse? - o Morro da Conceição. Onde, aliás, Roberta morava antes de ir viver com Ademilson… Gente que desce desses dos altos e vai pelos córregos sempre é correria, viu?

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Mas, como eu ia dizendo, Ademilson e Roberta, juntaram a criançada que tava à toa ali pelo Córrego e montou uma troça de carnaval. Uma LaUrsa. Com a ajuda dele, fizemos tambores, com sacos de leite presos, em latas sem fundo, por borrachas de câmara de ar. O som lembra um tambor de verdade, daqueles de coro sintético... Saímos pelas ruas da comunidade. A batucada, cantarolando "a La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro!" "Tan-dan-dan! Naquele tempo eu não sabia disso, nem sei se eles tinham planejado aquilo. Mas hoje eu diria com certeza que aconteceu ali foi "uma oficina de percussão" aliás, várias oficinas. Segue a história…

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Lembro até hoje. O que ficou na parede da memória. Lembranças fortes daquele dia, como o fato de ser a primeira vez em que eu fazia parte de um bloco de rua, como é uma La Ursa, porque, até então, eu só tinha sido plateia. Espectador... olhava admirado de longe, quando passava uma dessas la Ursa, ou mesmo um papa-angu, nas ruas do bairro. Naquele dia Ademilson, tinha me colocado, junto com todas aquelas crianças, exatamente no foco da folia. Ali éramos artistas de rua. É verdade que, depois daquele carnaval, eu conheci a apoteose na Escola de Samba Barões do Córrego, onde fui caboclinho, e até destaque como um Santos Dumont. Mas naquele dia da LaUrsa eu era um batuqueiro. E o meu tamborzinho feito de lata e saco de leite, vibrava forte, ao repique de uma baqueta improvisada.

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A lembrança mais forte que ficou mesmo, para além de outras lembranças, foi a experiência de solidariedade que vivi quando o percurso terminou. Durante o circuito que passamos de casa em casa, driblando os ataques de mela-mela, e jatos de água que jogavam das lanças feitas de cano de PVC, várias vezes o coro puxando "pirangueiro" era silenciado pelo suborno de uma doação, geralmente em moedas... que gerava uma gritaria "é gente fina!" ... após vários ciclos de "a La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro" Ademilson tinha se encarregado literalmente de um saco de dinheiro... Findado o circuito, nos reunimos no quintal da casa de seu pai. . Contou o dinheiro e distribuiu todas as moedas em partes iguais para todo mundo que participou. Enquanto dividia o dinheiro, falava para a molecada sobre a importância de dividir por igual, sem discutir quem tinha feito o que, quem era mais importante... igual, entre todos. Até hoje, quando vejo Ademilson ou Roberta sendo classificados nos jornais de "empreendedores" sociais, eu rio comigo mesmo... porque aquele casal de "empreendedores" pra mim, serão sempre lembrados como um tipo de comunistas... ou no mínimo, socialistas.

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Algum tempo depois daquela atividade, no mesmo terreno da casa do pai de Ademilson, onde construíram a casa para viver o casal, (aliás, à medida em que a família ia crescendo, o número de casas no terreno ia aumentando também, igual aos compound de um povoado Yorubá). Primeiro Adelma, mãe de um dos meus melhores amigos, Feliciano, mais conhecido como "Maikel" garoto brincalhão, assassinado pela violência urbana. Depois Alcione, a filha bem empregada, a mulher mais elegante daquela rua, depois Dedêco, o Policial Militar mais simpático e boa gente, que eu já vi... casou-se e construiu sua casa ali, no mesmo terreno. Também Ademilson com sua esposa Roberta. (Posso estar confundindo a ordem das construções. Mas o fato é que pouco a pouco, o espaço foi sendo ocupado pelas filhas e filhos de Dona Alzira e seu Geraldo. Ali naquela pequena cidadela ancestral, eles organizaram um projeto social para desenvolver atividades educativas e de geração de renda voltado para ajudar "crianças carentes da comunidade" ou seja, todas as crianças da comunidade, já que a comunidade toda era "carente" de certa forma…

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Sob a ori-entação dos dois professores, as crianças mais escolarizadas atuavam, colaborando com aquelas que nunca tinham ido à escola... Vamos nos lembrar que isso foi antes da Constituição, antes do SUS e antes do Estatuto da Criança e do Adolescente. Nessa época, Ademilson e Roberta reuniam crianças pobres que tinham casa, família, almoço e escola. E nos convidava a agir conjuntamente com ele, no auxílio de outras crianças pobres que não tinham nem uma coisa nem outra. (Depois descobri que os teóricos chamam isso de "educação pelos pares''). Devido a seus contatos com outras instituições como o Centro Josué de Castro, e uma organização humanitária Alemã, o projeto que antes se resumia a aulas de reforço, prato de comida, e brincadeiras de roda e gincanas, foi crescendo e ganhou o mundo, abrindo uma janela social bem antes do tal Windows abrir-se para consumir nossa vida e inteligência, com seus "clica e arrasta".

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A maioria de nós, à época, não entendia muito bem o funcionamento daquela organização. Centro de Apoio ao Menor e à Mulher...CAMM (de novo, na época não existia ECA, estava em voga o Código de menores...só depois, com o advento do ECA, e com o crescimento da discussão sobre igualde de gênero, que "menor e mulher" passaram a ser Menino e à Menina, mudando as palavras e mantendo a sigla, no que passou a ser o Centro de Atendimento a Meninos e Meninas). Alguns de nós, adolescentes ali, éramos meio ressentidos ou chateados, porque parecia que os nossos mentores privilegiavam as crianças mais "encrenqueiras", estavam sempre botando no colo, dando desconto, gastando tempo... passando a mão na cabeça dos pestinhas. Enquanto para nós, os educados, meninos e meninas de família, os que não eram "maloqueiros" sobravam exigências e cobranças... Na época parecia injusto... Mas hoje sei que os teóricos chamam isso (eu chamo isso) de "ação afirmativa" e de equidade... (Coisa de cristão esquerdista, que acredita nas pessoas). E as cobranças, que nós achávamos injustas, eu acredito hoje, que era baseadas na confiança que tinham em nós. Era uma tentativa de nos conscientizar das nossas próprias capacidades... Muitos de nós, éramos capazes. Mas, a gente só não acreditava que era. E eles acreditavam... E pelo que sei continuam acreditando com muita força… Alguns diálogos de que me lembro:

Ademilson pintando um letreiro no muro pelo lado de dentro, me chamou pra perto dele, pra conversar…
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Começou falando uma coisa "aleatória" sobre o disco de Newton, que eu não conhecia na época, disse que era um disco pintado com todas as frequência de cores visíveis, lado a lado. E quando o disco girava rápido, um observador podia ver as cores se fundindo num branco, tornando impossível distinguir entre azul ou vermelho... Depois esticou a conversa observando o fato de que eu estava me envolvendo com diversas atividades, ali e aparentemente estava tendo dificuldade de conduzir todas elas... Eu era do grupo de teatro, responsável pela gibiteca; era do controle de fabricação e venda de picolés, do grupo de alfabetização e reforço escolar da tarde, e estava planejando dar um curso de desenho. Não que na ocasião eu recebesse aquilo como o sábio conselho que era. Na hora, só pensei que estava sendo criticado e isso não era bom (geminiano sensível é osso!).

Hoje vivo dizendo a mesma coisa pra mim: sossega rapaz. Não pegue tantas coisas pra fazer que vai dar branco! Lembre-se do disco de Newton. (risos).

Outro diálogo que lembro com nitidez, tive com Roberta, quando Domitila já tinha nascido e, pequena, brincava entre as pernas da mãe, enquanto eu contava entusiasmado que já tinha escolhido o nome que colocaria num filho, se um dia tivesse. Influenciado pela leitura do clássico Tarzan (não o filme. Livro mesmo, porque eu era um pivete sofisticado. Letrado!). O Tarzan de Edgar Rice Burroughs, que li, peguei numa biblioteca. Hoje (graças ao Google) sei que era da editora Codil) uma edição de 1959,
mais de 250 páginas, com lindas gravuras coloridas em couchê, capa dura com figuras em baixo relevo na lombada, e logo de cara na página de rosto, um homem branco típico, com a mão em concha na frente da boca, e um mico em suas costas, vestindo uma tanguinha de leopardo, conclama os animais da Savana africana... Numa perfeita ode ao machismo colonial, (supondo que não era um elogio à estética gay do Village People). Enfim, inspirado por esse livro, aliás pelos vários livros dessa coleção, eu que ainda não tinha entrado na adolescência direito, já tinha escolhido o nome da criança que eu pensava em nomear. E estava contando para Roberta, mãe de Domitila. O nome que eu escolhi? John Clayton Greystoke.

Ela não gargalhou na minha cara nem me expulsou do projeto. Só perguntou delicadamente, se eu não teria um nome mais brasileiro. Para ela, parecia um nome muito, assim, “americanizado”... Imagina o que ela diria se soubesse que antes de entender o que era “pensamento colonizado”, eu havia trocado os nomes de John Clayton para Kal-el, Zor-el e Koryander. (Todos personagens alienígenas de revistinha de super-heróis dos Estados Unidos). E o que será que ela diria ao saber que hoje eu tenho três filhas. E todas com nomes da língua portuguesa. Luísa, Beatriz e Teresa… é verdade que as duas mais velhas, não foram escolhas minhas. Eu só achei bom!. Mas, de alguma forma, a escolha de Teresa foi reflexo dessa consciência anticolonial. Claro que elas poderiam se chamar Ona-í ou Tampirawã-í... Mas aí já acho que eu estaria sendo hipócrita..


. (imagem: http://cammbrasil.org/)

Enfim, o fato é que muita coisa do que sei, muito de quem sou, aprendi naquele coletivo liderado por Roberta e Ademilson, mesmo quando não segui com eles na continuidade do projeto, que cresceu e mudou de local, mantive comigo uns ensinamentos e uns princípios. Algo já comum na minha família e naquela comunidade, mas que eles dois souberam catalisar e representar muito bem.


. (foto: Internet)

E mais do que isso, além de representar, eles conseguiram transmitir essa capacidade de representar nossa comunidade, a todo mundo que passou por lá. Inclusive a própria filha deles, Domitila, que leva adiante um legado de emancipação, e não o desejo colonizado, de se identificar com o Tarzan ou de batizar uma criança brasileira com nome de John Clayton Greystoke. Domitila, representando a tradição das periferias, impõe-se, ironicamente, no universo dos colonizadores, ostentando uma frase que a Europa entende "She's from the Jungle" para ali colocar à venda, numa perspectiva solidária, o produto do trabalho de artesãs da periferia de Recife. E dessa posição autoafirmativa, ela encontra uma janela, fora do Windows, nas telas das telenovelas (sim ela foi estrela de novela em alemão), e dentro das passarelas. Para, passando por elas, chegar ao inusitado título de Miss Alemanha. Sem abrir mão de sua identidade inicial. Uma verdadeira façanha!

Eu nunca imaginei que me sentiria tão bem representado por uma Miss.


(Fonte:instagram @domitila_barros)

Mas, o que me encanta nesse processo e que me faz ver uma conexão entre a revolucionária Domitila Barrios, e o bairro de onde veio essa jovem Domitila, o que me dá essa e a sensação de que essa Miss Alemanha representa toda a nossa gente, ao ponto de podermos comentar com orgulho: eita, sabe aquela Miss Alemanha? Eu conheci ela quando ainda era uma menininha, brincando no colo da mãe, carregada pelo pai… Algo mais me deixa feliz nessa história, além de saber que, no final, eu não tenho um filho chamado Clayton Greystoke, (obrigado, Roberta) …




(imagem: https://missgermany.de)

O que me deixa feliz de verdade é saber que Domitila, mesmo indo para a Europa nas tranças da ironia: "She is from the Jungle" e ganhando o concurso de Miss Alemanha, ela mesma não mudou muito. Né? O que mudou muito foi o concurso de Miss Alemanha.  E o Mundo.

P.S.

Enquanto eu estava pensando se postava ou não esse texto, recebi uma mensagem de um dos meus maiores amigos de infância - maloqueiro de Córrego, igual a mim (igual a Maikel, tio mais novo de Domitila, morto pela violência urbana). Marquinhos viveu comigo aquela mesma época, e trabalha hoje na emissora de TV local (onde está o melhor Carnaval!), lá onde recebeu a ilustre visita de Domitila.
Fim da dúvida, resolvi postar (muito obrigado, Marquinhos... e, Domitila só faltou o autógrafo.) É nós!

  (Marquinhos e Domitila. Fonte: arquivo pessoal)

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Conheçam o CAMM (http://cammbrasil.org)




quarta-feira, fevereiro 17, 2021

Deriva - escrevendo como quem delira.

 

by wikimedia.org 

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Deriva.

Deriva é a única palavra que me vem à cabeça, quando deixo solto o fio de teia que desliza a partir do meu pensamento. Se não for a única, porque muitas outras deslizam por baixo e depois dela, é sempre a primeira. A primeira palavra é deriva… deriva desliza, desmancha-se e se desenrola no ar como uma fina trilha de fumaça bailarina que se desprende do insenso numa sala meio escura. Um filete suave que suspende meu raciocínio prático, e absorve a si mesmo nessa dança cheia de incertezas, rica e aleatória… um fio a deriva, solto começa toda a história.. Na borda da palavra deriva, outra palavra se prende… e depois dela outra, e mais outra, formando uma rede, uma teia um fractal de ideias… que custo a deixar sem acentos, em constante desrespeito à reforma da minha língua materna…  deriva... incerteza; bordas, dobras, identidades alteridades diversidades. Formas de ser; jeito de estar.. homem nordestino negro filho da mãe, criado com vó. Em família matrifocal (e não matriarcal), com descendência matrilinear; humanista convertido ao feminismo e depois disso, ao feminismos das pretas… ao ativismo negro. Negro ativismo… nunca negativismo. Primeiro me veio uma Fala preta! E depois a fala da Sueli Carneiro, marrenta e ao mesmo tempo cheia de amores! Mulheres de Geledés (que se lê Gueledéz, talvez Gueledé... nunca Jeledez!)… onde reconheci as mulheres da minha família ancestral. Não exatamente onde, mas também onde conheci a letra falada de Cidinha Nessa deriva, me atravessa como faca, toda aquela conversa sobre ser homem… essa de masculinidade; e as brincadeiras sexuais, nem sempre heterossexuais, quase nunca tolerantes; na maioria das vezes invasivas, violentas, mesmo quando (ou talvez mais ainda) "apenas" simbolicamente… na maioria das vezes, violentas.. Ser homem ou nada. A paternidade e o cuidado, ajudando a reformular essa experiência. Ser homem e cuidador… à deriva por novos fluxos… das linhas e fluxos maquínicos do discurso e do poder, do poder sobre o discurso... deparei-me com outros percursos... o RAP salva vidas, o filme invisível Amarelo de Emicida é o elo que melhor liga as redes dessa história. Porque no resto da rede o circo pega fogo e o palhaço não tem dado sinal  de que se importe... Ele prefere importar o remédio descartado pelo cowboy. Este exercício de escrita torta, esparramada na porta, eu fiz enquanto pensava na rota que deveria dar à linha da minha vida... e olha, que a palavra deveria, não me liga a outra melhor do que deriva... que teia! Para entender o que eu quis dizer ou o que diria, pense como pensaria, como delinearia esse mesmo novelo de pensamentos um autor emaranhado assim como um Fernand Deligny.
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domingo, dezembro 06, 2020

Les personne noir au le Carrefour ou Pessoas negras na Encruzilhada - um trecho de 2020

[...aviso aos navegantes: vazei esse trecho sem autorização do Editor, então - se ainda está feio, é minha responsabilidade, se já estiver bom, divido com ele a ideia de falar sobre isso] 

...Outro dia eu fiz uma pesquisa rápida na internet procurando por “jovens mortos pela polícia” entre as pouquíssimas imagens de garotos brancos, fui atraído pela foto de um rapaz com traços de trissomia do cromossomo 21, em que podia ver a legenda: “Jovem com síndrome de Down é morto po...” cliquei na foto acessando o link para o site da Veja. Lá pude ver melhor a foto e ler a manchete: “Jovem com síndrome de Down é morto por policiais na Suécia.” Tratando-se do caso de assassinato cometido pela polícia contra Eric Torell , rapaz de 20 anos, diagnosticado como autista, que carregava uma arma de brinquedo... na Suécia!

Aqui no Brasil - enquanto não viramos a Suécia, que temos vocação para superar - em resposta a esse racismos institucional, ou mais especificamente ao racismo estrutural, sobre o qual vem falando o professor Silvio Almeida,  o Senador Paulo Paim apresentou um projeto de lei que endurece a pena contra atos criminosos que possam ser associados ao racismo. Poderíamos batizar de Lei João Vitor, ou Lei João Beto, para lembrar os assassinatos praticados sob o teto cúmplice das redes Carrefour Brasil e do Habib’s. Mas seria querer muito, esperar alguma atitude crítica desse tipo de comércio, plantado na tradição escravocrata e colonialista da França e de Portugal (sim, o Habibs com sua comidinha árabe, é na verdade um negócio de família portuguesa. Nada de mais, pra quem conhece História, certo?). Mas se quisessem poderiam seguir o exemplo da Magazine Luiza, ou simplesmente Magalu.  Que bancou a iniciativa de oferecer programas voltados para inclusão de negros em lugares de poder, dentro da própria empresa. Num gesto que - mais do que sinaliza, se envolve com - a promoção da igualdade, a partir da criação de oportunidades igualitárias.

Aí, vem o outro lado do problema: O Carrefour anunciou a formação de um comitê de especialistas, incluindo negros e negras experientes em diversas áreas, para apresentar alternativas para evitar novos casos como o assassinado de João Beto em Porto Alegre. O comitê seria composto por Rachel Maia, Adriana Barbosa, Celso Athayde, Silvio Almeida, Anna Karla da Silva Pereira, Mariana Ferreira dos Santos, Maurício Pestana, Renato Meirelles e Ricardo Sales. (dizia a notícia no site da Época Negócios publicado em outras fontes também). Uma observação à parte, é que acho que essa lista já é algo importante, pela conexão que faz entre pessoas negras de áreas diferentes, permitindo que qualquer negro de periferia, procure rapidamente referências para desenvolver seus interesses pessoais... minha nega, meu nego, salve essa lista nos seus contatos! Mas voltando ao assunto...

Várias vozes de ativistas negros se levantaram contra a ideia do comitê desde o princípio. O movimento Coalizão Negra por Direitos manifestou sua rejeição ao comitê, e organizações como o Partido da Causa Operária também criticaram duramente a ideia, e os que a ela aderiram. Listado aí, o Prof. Silvio Almeida, jurista e filósofo, reconhecido por sua crítica ao racismo estrutural, e ao capitalismo como sistema dependente do racismo, foi um dos mais criticados pois os analistas acharam contraditório alguém que critica abertamente o capitalismo como um sistema essencialmente racista, aceitar compor um dispositivo que serviria para “limpar a imagem” dos empresários capitalistas. Um desses analistas foi Leonardo Sacramento, responsável por um blog chamado Fanom e Política, que dissecou detalhadamente os aspectos da contradição.

Entre as várias observações que Leonardo Sacramento faz, uma diz respeito ao modo como um dos convidados a colaborar com o Carrefour reagiu. Segundo sacramento, o humorista Yuri Marçal conhecido por sua acidez engraçada contra o cotidiano racista do brasileiro, especialmente do branco brasileiro, recebeu proposta da empresa para que participasse de uma campanha publicitária e respondeu com um bem ácido e (só talvez engraçado) “vai tomar no cu”. O texto de Leonardo inteiro é muito bom, não precisa concordar com tudo, mas vale ser lido, mesmo depois que 2020 acabar... (supondo que 2020 vá acabar... e que vá acabar antes do fim do mundo)

O texto de Leonardo Sacramento foi repercutido no grupo de Psicólogas e psicólogos negros do Brasil, por onde circulam informações relativas à Articulação Nacional de Psicologas(os) Negros(as) – ANPSINEP. Produzindo diferentes posicionamentos.

O meu eu compartilho com vocês aqui (pra ver se vocês se interessam pela conversa toda que está no livro 2020 da Editora Fortunella - #contempublicidade #2020 #Fortunella). Vai no link da pré-venda, enquanto há tempo!

Começo pensando no nome do tal supermercado: Carrefour (todo mundo aqui sabe que uma tradução pra Carrefour é encruzilhada?). Então penso no caso como "as pessoas negras na encruzilhada"  - em francês poderia ser: les personne noir au le Carrefour.

Não tenho dúvidas sobre o fato de que o que houve no Carrefour é um caso Racismo estrutural. Mas também é um problema de psicopatia institucional. Sim. Podemos dizer que isso do Carrefour é coisa de psicopata. E eu explico o porquê; segue o raciocínio do psicólogo:

A análise institucional é um campo de estudos ou de atuação, que aciona conhecimentos de psicologia, psicanálise, economia e sociologia, para entender os processos e dinâmicas existenciais das organizações, das instituições. Cornelius Castoriadis com o livro A instituição Imaginária da Sociedade ofereceu ferramentas para analisar a instituição como um processo dinâmico, com instâncias e momentos instituintes e instituídos, relacionados aos movimentos do poder, em que estão implicados aspectos da violência e do desejo na luta de classe.  

O cerne da Análise institucional é que este enfoque nos permite pensar, por analogia, a organização como uma pessoa. (riquíssimos os sentidos de pessoa, hein? Não pára aqui, não; vai buscar mais). E como qualquer pessoa pode desenvolver patologias, as instituições também adoecem... independentemente de serem física ou jurídica, são pessoas.

Além de não precisar dizer que estou fazendo uso de uma licença poética, sem fundamentação teórica, eu não vou entrar na discussão que os ativistas da Luta Antimanicomial fazem acertadamente sobre os problemas do diagnóstico psiquiátrico e do uso de categorias patológicas, imprecisas para definir pessoas que são diferentes. Nem vou lembrar que receber um diagnóstico de psicopata, não significa autorização para praticar assassinatos. Não vou fazer isso, porque aí a discussão seguiria um outro rumo. Aqui, vou assumir como pressuposto que as psicopatologias  são fatos e que o diagnóstico é a revelação dos fatos sobre as pessoas com psicopatias.

Se fizermos uma pesquisa rápida, temos grosso modo uma definição de psicopata:

*Os traços-chaves que os sociopatas e os psicopatas têm em comum incluem:

·         Um desrespeito pelas leis e costumes sociais;

·         Um desrespeito pelos direitos dos outros;

·         A falta de remorso ou culpa;

·         Uma tendência para mostrar comportamento violento;*

  Então, vejamos: Na trajetória conhecida do Carrefour temos:

·         Assassinato de cachorro;

·         Agressões de mulheres, incluindo estupro.

·         Ocultação de cadáver

·         E assassinato.

 

Isso não é ou não é a trajetória de um psicopata??

 Quanto à formação de um comitê de pessoas negras especialistas de várias áreas para oferecer soluções aos problemas do Carrefour (atravessado por protestos de diferentes ordens: desde o questionamento da legitimidade desses especialistas como líderes ou representantes da população negra, até a acusação de terem se vendido, passando pela condescendente crítica da ingenuidade), a minha opinião é dada como psicólogo (na forma de uma pergunta):

O que respondemos, se formos procurados por uma pessoa psicopata homicida, que pede nossa ajuda para deixar de ser homicida?

A) "Vai tomar no cu!"

B) "hum! fale-me mais sobre isso!"

C) "Nenhuma das alternativas está correta"

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Esta é a encruzilhada. Atender ao pedido do louco e tentar encontrar uma solução transformadora – se é que possível - para que ele possa viver sem causar danos a si e aos outros? Ou aceitar que o louco não tem solução e condená-lo mesmo ao cárcere e à morte social? O povo negro está na Encruzilhada. Pra que lado vamos?

 

quinta-feira, maio 28, 2020

Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus

Quando? acho que era 1991 ou 1992; Onde? Em Recife, no bairro das Graças, na vizinhança da ETEPAM, também conhecida como Escola Técnica Estadual Professor Agamemnom Magalhães. E quem? A figura principal desta história tem o mesmo nome de personagem de uma canção da Legião Urbana... mas na época, eu ainda não sabia o seu nome. Nem sabia que ela existia... quem chamou minha atenção para sua existência foi uma colega, que apontou pra ela no outro lado da rua, da varanda da sala de desenho, onde ficávamos nos intervalos das aulas. (parece que essas varandas foram interditadas aos alunos e seguem refletindo uma política educacional que parece se valorizar mais pelo que restringe e menos pelo que estimula na vida de estudantes.)...
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A colega mostrava-se interessada pela figura, intrigada com o fato - para ela esquisito - de que a jovem protagonizava uma cena rotineira. Um casal, uma moça e um rapaz (naquela época este adendo era desnecessário por óbvio, mas hoje, felizmente, esta marca heteronormativa caiu em desuso) dirigia-se ao ponto de ônibus, entre risos e abraços, trocas de carinhos e beijos, de modo descontraído e ao mesmo tempo teatral. Um misto de "só existe você e eu" com "tá todo mundo olhando pra gente". O casal de amantes ficava por ali, um tempo, até que chegava o ônibus. Um deles subia, relutante, despedindo-se pela janela, enquanto o outro, solitário seguia à pé, voltando na direção de onde tinha vindo... O que deixava minha colega de varanda intrigada, (talvez até chocada), não era esse ritual romântico de um amante acompanhar o outro, até o ponto do ônibus; mas o fato de que o amante que ficava era sempre a mulher do casal , enquanto o homem partia, seguro no coletivo... isso era, para minha colega observadora, uma inversão de papéis, com a qual ela não estava acostumada... se hoje, parece que eu não concordo com ela, na época, não esbocei nenhum traço de reflexão feminista. Pelo contrário, aderi pacificamente ao cordão dos escandalizados com aquela menina... e a vida seguiu.

"Algum tempo depois..."
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Fiquei sabendo que aquela menina, era a mesma com quem um outro colega estava namorando. Desta vez o fato intrigante envolvia, além da mesma jovem e um outro colega, um terceiro. Não exatamente por um triângulo amoroso. Mas pelo fato de que os três, costumavam ficar próximos,  passando tempo livre no pátio da escola, enquanto o casal, trocavam seus beijos e abraços como seria de praxe, o terceiro permanecia do lado, numa prosa leve, e tranquila com os dois... razão pela qual era acintosamente acusado de bancar o "segura-vela" (aposto que você riu, mas era assim que se identificavam ainda nos anos 90, a figura que acompanhasse um casal de namorados, sem ter nada melhor pra fazer, pois o poli-amor, tinha ficado nos anos 60, e dado dor de cabeça para nossos pais). Pelo que me lembro, posso estar invertendo a ordem dos fatos, e esta segunda narrativa seja anterior à primeira. O importante é que são duas cenas em que a jovem, homônima da alma gêmea do Eduardo de Renato Russo, aparecia escandalizando os costumes da época (aposto que você riu de novo... mas é verdade, os costumes dos jovens nos anos noventa eram quase tão caretas quanto o governo do Brasil de hoje... de onde você acha que veio todo esse apoio à família, tradição e propriedade?).
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"Segura vela de amor platônico...
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Por fim, numa terceira cena, fiz contato com a moça, Mônica Johnston, aliás, a única que vai ser nomeada nesta história, porque esta postagem é uma resposta carinhosa ao seu desafio de facebook, sobre quem lê suas mensagens (uma coisa chamada fruta-pão, ou algo assim). E um breve resumo de como passei de observador escandalizado a fã incondicional de sua figura. Como dizia, na terceira cena, encontrei Mônica, agora não mais como um pronome da terceira pessoa, mas uma segunda pessoa, um Tu cheio de afeto e respeito. E logo depois num caloroso plural, nós. Conversávamos os três. Ela, um novo amigo e eu... A verdade é que esse nosso novo amigo, estava mais interessado nela, do que em mim. Mas, por achar que ela e eu, éramos amigos de longas datas, foi me dando espaço na conversa dos dois... E eu, que do meu ponto de vista, fazia dois novos amigos, fui tratado como se fosse velho amigo de ambos. E acabei sendo mesmo... velho amigo de ambos. Por algum motivo, e por várias vezes sentia que eu estava agora no lugar daquele terceiro amigo da história anterior, sendo eu o segura-vela. Pra fazer uma analogia poética com a canção de Renato Russo, poderia dizer que ela era Mônica, ele Eduardo e eu: o próprio Renato, porque "nossa amizade dá saudades do verão"... mas assim como eu estou longe de ser Renato Russo, o meu amigo não tinha nada de Eduardo... Mas ela gostava mesmo de Manuel Bandeiras e conhecia as músicas do Bauhaus..
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Inclusive, ela chegou a me dizer que conhecia um peruano chamado Pablo. Mas essa já é outra história
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Né Mônica?

quarta-feira, novembro 27, 2019

O décimo quinto integrante da Devotos: eu no festival comLula Livre




Como disse na postagem do Facebook ao ver "minha" banda - Devotos (PE) - escalada pra tocar no Festival com Lula livre em Recife: "cada um vai como pode".
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Eu só podia ir, nessa condição. Na condição fantasiosa de décimo quinto integrante da Banda. E foi assim que eu fui.  Eu tava lá com Lula Livre, e com a Devotos!

Como eu percebi que fazia parte da Devotos eu conto a seguir:
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Não lembro exatamente o ano - isso é para Historiadores(as) e Jornalistas - Sei que o local era o Maluco Beleza e o evento era um Show da Devotos (Abril pro Rock?). Nos dias anteriores, eu tinha acompanhado Neilton Carvalho, como uma espécie de aprendiz de artesão medieval, dando uma força na estampagem das camisetas, na montagem das caixinhas que embalariam a fita k-7 "Vida de ferreiro" e na pintura do pano de palco da banda.
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Claro que Neilton fazia quase tudo sozinho. Eu - ao contrário dos aprendizes de verdade - não preparava o material ou limpava os instrumentos para o mestre trabalhar sem embaraços, apenas finalizando o processo e recebendo os créditos pela obra toda. Eu, não. No máximo, esticava uns tecidos quando o braço dele não alcançava sozinho, ou fixava uma armação de Silk Screen, pra ele espalhar a tinta com as outras duas mãos enquanto escorava a bancada improvisada e cambaleante com uma das pernas. Mas eu olhava tudo que ele fazia com a atenção e a admiração de um aprendiz - se, de fato, não aprendi nada, foi por pura incapacidade minha, porque o mestre estava ali.
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Além de olhar muito, eu também ouvia. E, se você souber ouvir, pode ter certeza que Neilton vai falar. Não é que eu seja um cara calado - quem me conhece sabe que eu falo, e muito. Mas Neilton, quando está na "oficina" - já que ele se recusa a definir seu local de trabalho como Atelié e sua obra como Arte (talvez aceite "artemanhas").
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Enfim, quando está trabalhando Neilton não é a figura de um monge escultor beneditino, compenetrado,  mergulhado em suor e silêncio. Essa é a imagem dele quando ele está no palco, tocando uma de suas já muito faladas "guitarras-ciborgue". Na oficina Neilton é outro. Quem conhece, sabe que o cara fala, visse? Sempre tem uma história. Um acontecido; um buruçu, um rolo, uma bronca que ele precisou resolver, uma pessoa fascinante que ele conheceu; uma presepada que alguém aprontou e que ele viu ou ficou sabendo.

Mas boa mesmo são as dicas de Neilton. Ele sempre tem uma muito boa, sobre quase tudo que vale a pena saber no mundo das artes ou das artemanhas. Dicas musicais, eletro-eletrônicas ou gráfico-visuais... até mesmo dicas sobre conduta ética e atitude pessoal - sobre esses tópicos Neilton é uma referência, uma espécie de conselheiro, uma autoridade reconhecida, ainda que várias vezes contestada - porque a galera não se contenta em pedir conselho, querem que o conselheiro diga algo que eles se agradem ao ouvir. Mas aí, se ele fizesse isso, não seria Neilton.
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Neilton, fala muito, mas é direto. Objetivo e sem adornos. Aliás, talvez o negócio não seja que ele fale muito, e sim que ele tenha muito a dizer. Mas, como eu - que não tenho tanto a dizer, e por isso falo pelos cotovelos - ia dizendo sobre o show dos Devotos do Ódio no Maluco Beleza, cuja data não lembro. Dificilmente eu teria grana para ir nesse show se não tivesse descolado esse trabalho de "aprendiz" com Neilton.
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Depois de uma semana batendo papo e segurando as camisetas pra ele pintar, eu estava agora incumbido de vendê-las.  E durante as vendas eu caminhava pela área, com uma mochila nas costas e uma camiseta pendurada num cabide - como mostruário. E Assistia aos shows. Era uma das primeiras edições do Abril pro Rock (segundo informação de Neilton, era a 4a. edição). Nessa hora, um cara se aproximou de mim pra elogiar o trabalho da Devotos. Ele disse que tinha vindo do interior, só pra ver a Devotos e soltou: "O som da banda de vocês é muito massa, velho!" Eu fiquei lisongeado por ser incluído na banda, mas não podia assumir os créditos pelo trabalho dos caras. Expliquei que eu não era da banda. Só estava vendendo as camisas. Ele me corrigiu: "É sim, você não tá com os caras, fazendo aí sua parte? Então você é da banda!".
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O primeiro impulso foi revisar os papéis de cada um dos integrantes do trio. Neilton como ja disse "fazia tudo". Era o cara das engenharias, da casa de máquinas, a indústria cenografista e ilustrador, além de tocar fogo nos palcos com suas guitarras de sucata; Celo o cara da cozinha, dos bastidores, uma espécie de despachante do submundo, nos corres e agendas, documentos e inscrições que ninguém queria fazer... e ainda segurava aquela artilharia pesada na bateria no fundo do palco... e Cannibal. Porra! Cannibal  é Cannibal. Que mais se pode dizer sobre o cara que era a alma daquele corpo? ao mesmo tempo ele é "frontman" e the "insideman"... já eu... eu não me via na banda
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Mas, quem era eu pra discordar daquele fã? Acho que do ponto de vista dele, devido à distância, eu era bem próximo da Devotos. Afinal, comparado com ele, eu era mesmo um integrante. Fiquei tão enpolgado com essa conclusão que pensei em me colocar como o quarto integrante do trio Devotos do Ódio. Mas aí pensei em todas as pessoas que deram sua contribuição para a Devotos. Além de Neilton, de Celo e de Cannibal e que, de uma maneira e de outra são integrantes da banda como eu - e alguns tinham até mais tempo de casa... (salve, uóli; Adilson; Jailson; Jaiminho... Marcelo...Bá! Salve todo mundo que deu suor ali antes e depois de mim!) ...fui pensando melhor e vi que pra ser justo eu deveria esta alí entre os trinta e seis integrantes da banda... mas como eu sou ambicioso e carreirista, me coloquei logo entre os quinze integrantes... conta-se aí uns onze ou doze na minha frente, em torno da Guitar Band Hard Core mais  acolhedora da história do rock.
Este sou eu. O décimo quinto integrante da Devotos, fazendo minha parte em mais um show da Banda...

segunda-feira, outubro 28, 2019

Pela Coroa de Dadá! a minha coroa, Didi!


Tim Maia se apresentou em Recife...em maio de 1972. Na platéia, uma moça de 19 anos começou a sentir as contrações. Ia dar à luz, seus amigos tiveram que levá-la às pressas, e ela teve seu primeiro filho, dos quatro que nasceriam vivos ao longo de sua vida, na Maternidade Barro'Lima... cinco meses depois, em 29 de outubro, a moça completaria seus vinte anos.
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 Filha de uma auxiliar de enfermagem que ganhava a vida em trabalhos temporários, sobretudo como "cabo eleitoral" de políticos locais, com um boêmio incorrigível que acabou morto, num desentendimento de porta de bar, a menina passou a maior parte de sua infância num Colégio internato para moças, na Praça Chora Menino, onde hoje funciona o Instituto Nossa Senhora de Fátima... lá, segundo consta, ela não foi a melhor aluna, mas viveu boas histórias pra contar ao filhos e às filhas que teve.
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Uma infância atravessada por restrições materiais e por abundancia de afetos. Brigas, namoros, ressentimentos, e uma rede ampla de mulheres cuidadoras, para além da família de sangue... viveu um tempo na casa da madrinha no bairro da Imbiribeira... que seria divulgada no mundo por Chico Science... junto com "Bom Pastor ... Ibura, Ipsep, Torreão, Casa Amarela"... Localidades que a menina pôde visitar, às vezes acompanhando a mãe em campanhas eleitorais, às vezes acompanhando a avó que ajudou a aposentar pelo extinto INAMPS...
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A vida daquela moça não começou em 72. A minha com ela, sim. E hoje venho pensando nas coisas boas e ruins que passou antes que eu chegasse e depois de mim, minhas irmãs e meu irmão mais novo.
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Os amores, as dores, as alegrias e as esperanças constantemente renovadas...
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O gosto franco pelo cultivo de amizades solidárias, que não deixam de ver nossos defeitos (às vezes até inventam um que a gente não tem), mas nunca deixam de nos socorrer quando é necessário; o respeito honesto pelas diferenças que precisam existir e resitir nas periferias; a capacidade de acreditar em si mesma, e mostrar que a mulher poder ser o que ela quiser: atriz de teatro; detetive particular, palhaça de Fecim ( A Feira do Comércio e da Indústria do Nordeste - Fecin); moça do cafezinho; atendente de dentista (antes de inventarem o auxiliar de saude bucal); diretora de escola de Samba na terra do Maracatu; liderança comunitária e sindical; candidata em eleição pra vereadora; Iabá em casa de xangô; feminista cristã ou missionária evangélica... copeira de motel; telefonista, mãe, professora, doceira; vendedora; musa e inspiração.
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A mulher pode ser tudo, se seguir o exemplo de Irandira Maria Pedrosa!! Que me ensinou a clamar pela coroa de Dadá, a minha coroa, Didi; minha admiração incessante se renova todo ano em 29 de outubro.

quinta-feira, abril 04, 2019

Sim, homens podem impedir estupros. Em cinco passos

"Cinco passos para impedir estupros: comece por: "Não estupre!"
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Há cerca de três anos. Eu coloquei esse ponto na pauta. Desde então este blog seguiu quieto sem qualquer texto de atualização. Ora, os quatro gatinhos e as três gatinhas pingadas que costumam ler o que se escreve por aqui, sabem que a assiduidade da publicação não é o nosso forte. Podia colocar na descrição do blog: "Somos um periódico, do tipo esporádico..."  Por outro lado, quem sabe qualquer coisa sobre o autor destas linhas eventuais, sabe que por aqui, escrever é uma fonte de gozo. Portanto, se estamos há tanto tempo sem escrever, é de se supor que há um mesmo tanto ficamos sem gozar (falando do gozo da escrita, obviamente). Diria até que, há tanto tempo me privando de escrever, passo mesmo é por um sofrimento.
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É este o ponto então onde retomo o assunto iniciado em 2016. O que os homens podem fazer para impedir um estupro, ou melhor o que os homens podem fazer para impedir a violência sexual?
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Se o amigo ou amiga navegante (diria o Paulo Henrique Amorim), não tiver lido ainda a postagem anterior, seria uma boa idéia, "voltar" lá e dar um bico, antes de continuarmos...
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Saibam que nesse período vários assuntos me chamaram a atenção e tive vontade de escrever sobre eles aqui no blog... mas, sempre que eu ia começar, esbarrava naquela última postagem com a promessa de que o assunto seria retomado. E eu perdia a vontade de escrever sobre outra coisa...
e seguiu seu avanço a time line... dá um click no forward. Porque se tivesse pausa no play, de lá pra cá, todo mundo ia ver que, nesses tempo todo, o assunto continuou sendo importante e urgente... como se não tivesse se passado quase três anos... Não preciso fazer isso aqui. Mas se você quiser vai no buscador de sua preferência (nem precisa ser duckduckGo, pode ser  no Qwant mesmo..pra não dizer que só falei do Google), faz uma pesquisa sobre caso de estupros no Brasil...
Você vai ver que o assunto continua recente. Uma questão que precisamos resolver.
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Eles dizem: "precisamos falar sobre Kevin"; Froid e Pedro Qualy, continuam querendo falar sobre erva... Eu acho que precisamos falar sobre estupro.
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E sobre como nós, os homens, podemos  parar com isso. No post anterior eu falei de como a cultura  ajuda que os estupros aconteçam. Agora, vamos falar sobre como os homens podem parar com eles. Acompanhe essas dicas quentes e compartilhem com os homens que você conhece.

1° NÃO ESTUPRE NINGUÉM,
 Lembre-se de que uma pessoa que foi estuprada, pode ter recusado, mas, isso não impediu o estupro. Por outro lado, se o autor de estupro se recusar a praticá-ĺo não tem como ele acontecer. O primeiro que pode impedir o estupro é o homem que estaria estuprando. Poderia ser você. Não seja. Não estupre.

2°. NÃO DESCUIDE DE SEUS AMIGOS.
Saiba que boa parte dos estupros praticados acontecem por causa do apoio, do consentimento ou do silêncio de amigos de quem pratica o estupro. "Ele é trabalhador"; "sempre me apoiou quando precisei"; "Ele é um bom amigo". Pode ser verdade. Mas, nada disso tem relação com o estupro que ele praticou ou poderia praticar se você ficar em silêncio. Não fique! Impeça-o! Ajude-o a responder pelo erro.

3°. NÃO DESCUIDE DE VOCÊ.
saiba que não existe um perfil preciso do estuprador; mesmo que haja homens mais propensos ao uso da força ou ameaça, para obter sexo; o abuso sexual não se reduz a esses meios, e não existem regras rígidas pra saber quem praticaria ou quem nunca praticaria um estupro  (álcool, drogas, pressão de grupos; desordem afetivas momentâneas, por exemplo são alguns fatores que podem interferir) ... Por isso qualquer um, poderia ser um estuprador, a depender das circunstâncias. Inclusive você, homem.  Sabe o seu amigo? Esse que mencionamos na segunda dica? Pois é...ele poderia ser você. Esteja ciente disso. Evite se colocar nessas circunstâncias.

4°. NÃO SE OFENDA SE UMA GAROTA OU UMA CRIANÇA DESCONFIAR DE VOCÊ. Se ela não te conhece, lembre-se que o corpo e a vida dela está em jogo. Ela não sabe que você é "um cara bacana". Pode ser que você não seja. Deixe que o tempo e os cuidados que você demonstra sejam seus advogados. Essas pessoas são vulneráveis; não alimente o medo delas com a sua indignação.

5°. NÃO ALIMENTE A CULTURA DO ESTUPRO. Eu, você, o seu amigo, as garotas e as crianças, nós somos o que somos dentro da nossa cultura. Somos influenciados por ela, mas temos algum poder sobre ela também. Poder de influência e,  principalmente, poder de resistência. Então é necessário, mas não basta você se recusar a praticar o estupro; é necessario, mas não basta você impedir seus amigos de praticar abusos; além de ser cuidadoso com mulheres e crianças, você precisa ter cuidado com os elementos da cultura que podem estimular a ocorrência ou aceitação do estupro; precisa aprender a reconhecê-los nas imagens populares, nas piadas, nas histórias que culpam as vítimas; que banalizam o abuso sexual como simples "brincadeiras" ou "mal entendido"; que colocam a violência sexual num cartaz ou numa música, como simples "fantasia"; resistir à cultura do estupro é parar um estupro antes que ele aconteça. Resista!

Seguidas, essas cinco dicas, que podem ser listadas nos dedos da mão (✋), poderão contribuir muito pra erradicação da violência sexual, que vem sendo praticada pelos homens contra mulheres e crianças, em diferentes regiões e classes sociais.  Então, se você é homem ou conhece algum homem, Leia   e compartilhe este texto. Discuta com seus amigos.

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Procure mais informações sobre como os homens podem parar os estupros
Conheça a rede de homens pelo fim da violência contra as mulheres;
Campanha do laço branco.