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Elena, Eunice... tragédia.
Por esses dias, entre um intervalo e outro, no trabalho exaustivo de
opinar sobre a vida dos outros, em termos judiciais, enquanto perco (ou reduzo bastante) as
condições de opinar e decidir sobre a minha própria vida, deparei-me com uma crítica elogiosa do Hélio Costa, sobre o filme Elena
(2012) - um documentário (segundo dizem:lindo) escrito e dirigido por Petra Costa,
que está disponível na internet.
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Imediatamente me veio à cabeça "por associação clara", o filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Sales e baseado no Livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, um registro forte e sensível, igualmente comovente. (este eu vi).
De um lado, o documentário Elena, escrito e dirigido por Petra Costa - do qual só vi o trailer - aborda as reflexões intimistas da irmã mais nova da atriz Elena Costa, tentando refazer o percurso da irmã mais velha, que foi para Nova York em busca de realizar o sonho de tornar-se uma artista plena e, com a interrupção precoce da vida, acabou protagonizando uma tragédia familiar.
Entre várias críticas disponíveis sobre o premiado documentário, o sociólogo e jornalista, Lúcio Flávio Pinto escreveu:
"Acima de tudo, é um belo filme, com momentos sublimes, que saíram de Petra como num transe, num exorcismo, numa catarse. Ela buscou a verdade de Elena e, encontrando-a, finalmente ficou em condições de seguir seu próprio caminho."
De outro lado, o filme Ainda Estou Aqui, do Walter Sales trata da mudança repentina nas condições de vida da mãe de família Eunice Paiva, a partir do sequestro de seu marido, o político Rubens Paiva, forçada a lidar com a brutalidade institucional do Estado brasileiro, durante a ditadura cível-militar que dominou o Brasil, a partir do Golpe de 1964.
A "associação clara" que eu faço entre o um filme e outro, para além de retratarem histórias vividas, mais ou menos no mesmo período, deve-se ao fato de que trata-se de dois registros, relativamente diferentes do protagonismo de mulheres brancas de classe média/alta brasileira, experimentando formas bem diferentes de opressões ou sofrimento, com impacto sensível para toda a família.
Cláudia... a excluída.
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Os dramas retratados nesses dois registros são fortes e a narrativa bem cuidadas coloca ambos no lugar digno de história trágica que merece nossa atenção. Para Dona Eunice e a jovem Elena todo nosso respeito e nossa compaixão.
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Porém a questão que me obrigou a escrever esta postagem vem de uma terceira voz, silenciada de modo tão brutal e repentino, uma tragédia tão grande e dramática, que se torna maior do que as outras duas, não porque seja possível comparar metricamente o sofrimento causado por mortes humanas, mas porque essa tragédia, ainda está aqui, esperando para ser contada. Ainda está aqui, esperando uma narrativa forte e bem cuidada que possa colocá-la no mesmo lugar de dignidade que cabe a todas as tragédias humanas. Podemos falar de um Terceiro excluído, se vocês quiserem.
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Nem Eunice, Nem Elena, eu me chamo Cláudia. Este é o nome da mulher que protagonizou DURANTE O REGIME DEMOCRÁTICO, uma das maiores tragédias que a humanidade pode registrar. Morta, assassinada e seu corpo arrastado em via pública por um veículo do Estado, tudo filmado e compartilhado nas redes sociais. Ao invés de flores e um caixão, a imagem fúnebre de Cláudia, registrada para o futuro da família é ela pendurada no para-choque de um camburão.
Em 16 de março de 2014.
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Pensemos na vida de Elena, que passou a infância, na clandestinidade, porque os pais eram procurados pelo governo militar, ou na vida de Eunice, cujo marido foi sequestrado pelo Estado diante da família ,estupefata e impotente... alguém aqui acredita que no Brasil de hoje, uma família branca de classe média, com acesso aos meios de comunicação, possa ser arrastada de sua casa, viva ou morta, sem direito à defesa? sem contato com os familiares?
Vocês imaginam, nos dias de hoje, um Walter Sales, ou uma Petra Costa, uma Fernanda Torres, sendo torturada no porão de uma delegacia qualquer? Isso era possível nos anos 60 e 70. Hoje não é mais (e não será, se a ditadura militar não voltar). Mas, por outro lado: vocês imaginam uma Cláudia, ou um Amarildo, sendo mortos e arrastados em uma viatura da polícia qualquer? Pois é, isso ainda está aí...
E nem tem peso de tragédia. É mero folhetim policial.
Nós, que aqui (ainda) estamos...
Intelectuais e jornalistas negros ligados à periferia levantaram sua voz para dizer que não se identificavam com o drama retratado no celebrado filme "Ainda estou aqui" de Walter Sales, argumentando que, aquela história de opressão protagonizada por mulheres da classe média alta e branca, de famílias democráticas, criadas na liberdade moderna das capitais do sudeste, estava superada, enquanto a população negra da periferia, de todas as regiões, continua sendo oprimida e violentada diariamente pelas mesma forças policiais do Estado.
Essa falta de identificação
com o drama da família Paiva foi mal recebida por parte da imprensa e de intelectuais brancos de
esquerda, indignados com a falta de respeito, pela história das famílias
que lutaram contra a Ditadura.
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O que não entendo, da parte
desses intelectuais tão sensíveis, tão disponíveis para opinar sobre a
genialidade e sensibilidade desses registros dramáticos, dessas
histórias tão belas e tão tristes, tão humanas e pungentes.... É que
eles não percebem que a história de Cláudia, e de famílias como a dela,
continuam sendo vividas... esperando para ser cuidadosamente contadas. E
quem sabe, dignificadas.
Os policiais envolvidos na morte de Cláudia foram julgados, mas inocentados em março de 2024.
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Um trecho (clipe) da reportagem disponível no site Brasil de Fato.
Algumas Referencias:
BRASIL DE FATO. Caso Cláudia Ferreira: mulher foi baleada e arrastada por viatura, mas PMs foram absolvidos. Matéria on line: https://www.brasildefato.com.br/2024/03/22/caso-claudia-ferreira-mulher-foi-baleada-e-arrastada-por-viatura-mas-pms-foram-absolvidos/
BRASIL DE FATO. Ativistas repudiam absolvição de PMs que mataram e arrastaram mulher no Rio (reportagem de Alana Granda). https://www.brasildefato.com.br/2024/03/19/ativistas-repudiam-absolvicao-de-pms-que-mataram-e-arrastaram-mulher-no-rio/
BBC NEWS BRASIL. É possível criticar 'Ainda Estou Aqui'? O que diz quem não gostou do filme.
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0l1z6k406xo
Hélio Costa - Petra Costa, Elena e a tragédia da Solidão
https://causaoperaria.org.br/2025/petra-costa-elena-e-a-tragedia-da-solidao/
CHAVOSO DA USP. ‘AINDA ESTOU AQUI’: PORQUE NÃO GOSTEI DO FILME - vídeo no Youtube.
https://www.youtube.com/watch?v=KypivoeaXOs&t=24s&ab_channel=ChavosodaUSP
CINEDOCTECA. Filme Elena: Disponível no youtube. https://www.youtube.com/watch?v=KxoDVNh0tIA&ab_channel=Cinedocteca
Lucio Flávio Pinto. A Elena de Petra. https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2016/09/17/a-elena-de-petra/